Faz parte dos manuais: num surto de gripe mortal, fechar aeroportos deve reduzir a propagação da doença. Mas cientistas de redes descobriram uma abordagem mais eficaz e barata.
Um dos cenários de pesadelo para a sociedade moderna é a possibilidade de uma pandemia mundial de gripe, como a ‘espanhola’ de 1918, que infectou cerca de um quarto da população mundial e matou cerca de 130 milhões de pessoas.
Uma questão importante para os formuladores de políticas de saúde, é a melhor forma de limitar a propagação de uma doença, caso um novo surto viesse a ocorrer. Uma ideia óbvia é a de fechar os aeroportos internacionais para evitar, ou pelo menos reduzir drasticamente, o movimento de indivíduos potencialmente infectados entre os países. Mas será mesmo a melhor abordagem?
José Marcelino e Marcus Kaiser, da Universidade de Newcastle, no Reino Unido, pensam ter encontrado uma resposta. Dizem que uma melhor estratégia é cortar voos específicos entre aeroportos, podendo-se atingir a mesma redução na propagação da doença com uma acção muito menos drástica.
Estes modeladores usaram um modelo de alastramento-padrão para simular a propagação de uma infecção de H1N1 através de uma rede constituída pelos 500 maiores aeroportos mundiais e dos voos entre eles. O ‘surto’ simulado começou na Cidade do México. Ao correrem a simulação, para ver como diferentes estratégias poderiam reduzir a dispersão, descobriram que fechar aeroportos inteiros podia, obviamente, reduzir a infecção. Mas também estudaram estratégias menos óbvias, como olhar para as cidades que desempenham um papel importante na rede e reduzir os voos cerca de 25 por cento. Esta acabou por se revelar uma estratégia muito mais eficaz.
Os investigadores da Universidade de Newscastle descobriram que fechar aeroportos inteiros só tinha um efeito significativo sobre a propagação se fossem reduzidas as viagens em 95%. Pelo contrário, poder-se-ia alcançar o mesmo efeito através da remoção de apenas 18% de voos entre as cidades classificados por uma medida chamada ‘edge betweenness’. Na melhor das hipóteses, fechando aeroportos inteiros só poderia impedir infecções em 18%,enquanto que a remoção de voos específicos reduziu as infecções até 37%.
"A selecção de conexões-chave entre as cidades para o cancelamento de voos foi mais eficaz, resultando em menos indivíduos infectados com a gripe, em comparação com o fecho de aeroportos inteiros", diz Marcelino e Kaiser. Esta abordagem tem a vantagem adicional de perturbar muito menos pessoas e companhias.
Para uma infecção que comece na Cidade do México, as rotas que a ser alvo de supressão são S. Paulo para Pequim, Sapporo para Nova York e Montevideu para Paris.
Outra ideia que vale a pena testar, dizem, é ver se os aeroportos menores poderiam também desempenhar um papel importante na propagação da doença. Marcelino e Kaiser estudaram uma rede composta pelos 500 maiores aeroportos, mas o mundo está dotado com cerca de 4000 aeroportos.
Não é inconcebível que alguns deles, de menor dimensão, possam desempenhar um papel crucial na ligação entre diferentes partes do mundo de forma a facilitar a propagação da doença. Esta é o novo desafio dos modeladores de fluxos aéreos.
O artigo ‘Critical paths in a metapopulation model of H1N1: Efficiently delaying influenza spreading through flight cancellation’:
2012-Mai














