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Keiji Fukuda em entrevista

"Não se deve deixar de agir com medo das críticas". O número dois da OMS esteve em Portugal. Em entrevista ao Público, rejeita que a agência tenha errado na gestão da pandemia.


 
"Não é factualmente possível dizer que a vacina da gripe pandémica é perigosa"

Por Catarina Gomes, in Público de 30 de Janeiro de 2010


Quase nove meses após a declaração da primeira pandemia do século XXI, o médico Keiji Fukuda, que esteve em Lisboa a dar uma conferência, diz que, quando se fala "de surtos", já não se trata apenas da propagação de doenças e vírus, mas também de informações. Neste contexto, a OMS precisa de aprender a comunicar de forma diferente.

P-Como responde às críticas recentes do ex-presidente da comissão parlamentar de saúde do Conselho da Europa, o médico Wolfgang Wodarg, que aconselha as pessoas a não se vacinarem contra a gripe A (H1N1) por causa de supostos riscos, incluindo cancro?

Até agora foram vacinadas mais de 200 milhões de pessoas, o que quer dizer que há já uma extensa experiência prática e não vimos, em termos de segurança, provas de efeitos secundários diferentes dos da vacina sazonal. Neste momento não é factualmente possível dizer que a vacina é perigosa.

P-Mas há verdades que foram caindo por terra, como a ideia de que seriam precisas duas doses em vez de uma?

Na vacina da gripe sazonal é necessária uma só dose nos adultos porque a maior parte das pessoas já esteve exposta e ganhou algum grau de imunidade; as crianças levam duas doses porque nunca estiveram expostas. Na gripe pandémica, o raciocínio foi o de que todos os adultos seriam como crianças, porque nunca tinham estado expostas a este novo vírus e, por isso, precisariam de duas doses.

P-Chama-lhe a maior "surpresa científica" da pandemia. Este tipo de mudanças não pode explicar alguma desconfiança que se instalou entre as pessoas em relação à vacina...

Foi uma grande surpresa científica e toda a gente teve de se adaptar, mas os cientistas são treinados para lidar com dados inesperados. As pessoas podem entender isto de forma diferente: podem pensar que esta sempre foi a verdade mas não foi dita, ou ver isto como uma mudança de opinião...

P-Outra surpresa foi, até agora, a pouca gravidade desta gripe. Uma das questões que agora se coloca é uma eventual mudança dos requisitos da OMS para declarar uma pandemia de gripe, para passar a incluir critérios de gravidade da doença?

Essa questão está a ser avaliada e não é possível dizer que vai passar a ser um critério. Fazer com que seja um requisito encerra perigos. Coloca-se a questão de saber se esperamos que muitas, muitas pessoas morram para percebermos qual o grau de gravidade. Aconselhar os países a esperar e não tomarem acções preventivas até a situação estar má seria um conselho difícil de dar. Nesse caso, só nos podíamos penalizar por não termos feito nada. E depois de quem é a responsabilidade?

Fukuda

P-A OMS tem sido criticada pela forma como tem gerido a pandemia. O responsável do Conselho da Europa declarou que a OMS foi pressionada pela indústria farmacêutica...

O debate aberto sobre estas questões é positivo, mas há o tipo de críticas mais útil que é o que tenta melhorar as coisas. Se as críticas se fazem por razões secundárias, por motivos políticos escondidos, podem apenas causar confusão nas pessoas.

P-Foi isso que esteve em causa nas críticas do responsável do Conselho da Europa?

Não me vou pôr a adivinhar. No Conselho da Europa há muitas pessoas e muitos pontos de vista. Apenas o encaro como um dos fóruns onde decorre o debate.

P-A questão da comunicação às populações foi bem gerida?

Sabia-se desde o início que a comunicação ia ser muito importante. Fazer comunicação, bem, na era moderna é muito difícil. Há muitos sítios onde procurar informação e todo o tipo de opiniões têm espaço, o que muitas vezes pode confundir as pessoas, porque não sabem se uma opinião se apoia em factos, ou se é apenas uma preocupação individual. Hoje em dia as pessoas recebem informações de fontes muito diferentes: os mais jovens recebem a sua informação por sítios como o Twitter, por exemplo, os mais velhos têm outras fontes.

P-O que é que podiam ter feito de forma diferente a este nível?

É um problema muito sofisticado: como se aumenta a compreensão deste tipo de fenómeno, sobretudo numa altura em que tudo muda muito? Se surge um novo facto científico pode mudar toda a nossa compreensão do problema e pode fazer com que as pessoas fiquem confusas.

P-Esta é a primeira pandemia com Internet...

Quando se fala de surtos, já não falamos apenas da propagação de doenças e de vírus, mas também da propagação de informação, em que temos que lidar com as expectativas das pessoas em diferentes ciclos. Tudo faz parte dos surtos.

P-O que podia ter sido melhorado ao nível da comunicação?

É ainda muito cedo para tirar lições, ainda estamos a lidar com a situação. Mas é claro que temos que passar a comunicar melhor, como tentar passar mais informação, para mais pessoas, mais rápido, de forma mais compreensível.

P-Diz que a OMS às vezes é vista como um organismo que reage com demasiada lentidão, mas têm sido acusados de ter sido precipitados.

No início na pandemia fomos acusados de ter levado demasiado tempo a declarar a pandemia, depois de sermos demasiado rápidos. A responsabilidade das autoridades de saúde pública, como a OMS, é tomar acções com base em avaliações científicas, não podemos basear as nossas acções no desejo de evitar a crítica.

P-A OMS informou que estão dispostos a uma avaliação externa sobre a forma como a pandemia foi gerida. Isso é uma consequência das críticas?

O típico depois de uma crise como esta é avaliar e tentar ver onde há espaço para melhorias. Neste caso trata-se de uma imposição dos Regulamentos Internacionais de Saúde [nternational Health Regulations, que entraram em vigor em 2007]. Esta pandemia foi um grande teste a nível internacional.

P-Nada tem a ver com as críticas?

A avaliação já faz parte da cultura da OMS. Vamos usar a avaliação feita por uma comissão independente sobre a gestão desta pandemia. Devemos receber o primeiro relatório preliminar em Maio e o relatório final no próximo ano.

 

 
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